10 de janeiro de 2018

Empréstimo – Suzette Rizzo



  
Empresta-me tua festa   
para que eu sorria
a ilusão que resta.
Empresta-me tua alegria,
cansei dos espinhos,
do cinzento céu desta terra,
guerras arcaicas,
das chuvas e ventanias...
Empresta vai?
Carisma, ternura, magia!
Cansei de chorar!
- Suzette Rizzo - 


Uma noite a mais - Suzette Rizzo



Lá fora as mariposas,
na mesa um vinho barato
(onde andará o saca-rolhas)?
Pra variar a MPB do momento,
algumas canções nostálgicas
e os versos, meu unguento, 
sustento da alma sem companhia.

Lá fora, nem mais gente
ou qualquer movimento,
hoje, nem lua de outono
ou brilho de estrelas...
Aqui a escuridão da sala,
a solidão escorrida do telhado
às paredes do quarto.

Minha boca está cerrada,
corpo, peito e tato  
penetrados pelo frio.
Que droga a rotina, agora,
sem porquês, sem talvez...
Droga de vida emborrachada 
como sobra de pão francês!
Suzette Rizzo 



8 de janeiro de 2018

Trave – Suzette Rizzo



Sou maior que a minha dor,
e venço-a.
Maior que o meu desejo,
então consigo.
Maior que o amor,
então amo mais.
Se minha mente  atrai problemas,
derrubo-os.
Os seres não mais me afetam,
impeço.
Sigo, eliminando absurdos...
Coisas do mundo,
breco!

Suzette Rizzo - Monday, January 08, 2018







Truculências – Suzette Rizzo




Meus pensamentos possuem garras,
recordações assassinas,
visão borrada, esquálida.

É assim como adentrar porões,
fixar os olhos nas paredes pálidas,
e chorar fases crisálidas.

Mas meus pensamentos possuem garras
e lá estou renascendo asas quebradas,
recordações reprimidas,
tiranias sofridas.

Meus pensamentos possuem aço amolado,
estragos, retalhos...  
viu só?
Além de unhas afiadas.

Suzette Rizzo - January 3, 2018 




Voragem – Suzette Rizzo


Poderia me engolir
qualquer redemoinho
junto a sina mau escrita.

Saudade do pouco aconchego,
dos defeitos, do cheiro,
dele inteiro...

Mas, na verdade, o que falta
é aquela companhia,
papo bom, mente aberta, poesia...

Agora, silencio, sala deserta,
portas fechadas,
vida sem janelas.

Saudade
da sensação de ninho,
eu, seu pardalzinho!

No presente, jejum de tudo,
som de coisas quebradas,
lacuna gelada,

dissolução de alma,
corpo caindo,  
sensação redemoinho!

Suzette Rizzo -  January 08, 2018










6 de janeiro de 2018

quando o poeta dorme - nanamerij






quando o poeta dorme...
os sonhos vagam
sem rédeas
sem regras
sem rumos

quando o poeta dorme...
os sonhos voam libertos

revirando almas áridas
desfazendo vontades tortas
acordando tantas  noites mortas

o homem triste - canta
o amante perdido- volta
a mulher amada - retorna
a moça feia -   se enfeita
o menino pobre - enriquece

a vida se faz inteira....qualquer desejo acontece

quando o poeta dorme...empresta sonhos
- nanamerij  -



FOI UMA FELICIDADE IMENSA PARTICIPAR


Cérebro submisso – Suzette Rizzo



Revoaram, revoaram... e por fim se foram
todas aquelas visões perseguidoras.
Hoje, posso até recordá-las em conversas,
mas, não mais afetam meus sentimentos
recordações perversas.
Será verdade? Ou quero que seja assim.
Penso também,
estar pensando no atual em demasia,
cristalizando novas ironias
e bom seria se também revoassem  
estas coisas adversas.
No entanto, seria preciso desativar
essa parte da mente
que me permite sofrimentos,
deixa-la correr junto aos ventos,
deslembrar seria alento!
Difícil lidar com isso!
Difícil desmemorizar lampejos
se acompanhados do cortejo
dos mesmos desejos inimigos 
deste cérebro a eles submisso. 

Suzette Rizzo - January 6, 2018


4 de janeiro de 2018

Esteio - Suzette Rizzo



Sinto teu cheiro espalhado no ar.
Pergunto a amiga em visita:
Sentes?
Diz que não, claro!
Quem ama sou eu
e portanto quem sente o cheiro dele  
sou eu.
Conversamos então
e nem percebo a minha falta de educação,
assim distante, 
pensamento na saudade,
saudade hospedeira da cuca e da atenção.
A amiga fala e eu penso,
sentindo teu cheiro no ar, o calor das  mãos...
A visita se vai e te observo no canto da sala
escorando a ilusão!
Suzette Rizzo



3 de janeiro de 2018

Secreto - Suzette Rizzo



Odeio os humanos!
Não gosto mesmo 
da pior espécie de hominídeo ... 
Odeio mesmo a cuca dos homens!
Exceto os moralizados,
os verdadeiramente escritores,
aqueles poucos e capazes
de enfatizar no papel o intelecto,
não apenas seus falsos pensares e atos. 
Odeio a espécie dos ditos sensatos!
Bem, quero dizer com isso e somente:
Odeio os machos e seus cactos.

Suzette Rizzo - Tuesday, January 02, 2018


Sou assim ( II ) - Suzette Rizzo



Pesquisadora de misticismos,
investigadora do meu íntimo,
amante das minhas explorações,
escrevedora do que sinto.
Não sigo à risca a palavra alheia
seja qual for...
Creio em minha consciência,
acho a saída de labirintos,
arco todas as consequências.

Meu pensar não teme os trampolins.
Sou assim, dona de mim!

Suzette Rizzo
May 23, 2017
Art : Mandala * Edna Feitosa





Repulsa - Suzette Rizzo





















Extenuada, 
sem muro e sem porto
rodeou-me o dia semi morto,
da fase mal arrematada.

Elimino ainda o amor temporão
esterilizando bactérias
da boca cheia de ódio,
cuspindo o fel da ilusão.

Vinha de um sonho solitário,
antes vestido de nada
e agora a dor de tridente me rasga
numa vil emboscada

Trago então, a boca cheia de chingos,
a alma ardida, prensada, 
o passo solto na viga do abismo
a cuca cheia de vinho.

Chego ao fim daquela estrada
onde cantavam cigarras
soltando fogo das ventas
abatendo as tardes gastas.

Habituada as mortes e perdas,
trago o desprezo na ponta da língua,
ironias da sina na ponta da espada
 aversão extremada... ainda

Suzette Rizzo - 2015





Bons dias - Suzette Rizzo



Não poderia ter um bom dia
ou escancarar sorrisos
sem a leveza do amanhecer feliz.
Esse "Bom dia" existe aos que estão bem,
acontece para os que não estão sós,
para os sãos de corpo e de alma.
Quanto a mim, aguardo (sem esperanças) 
por este bom dia, quem sabe no futuro 
e decorrer das horas,
no toque do telefone,
no bip do celular, no sol que não surge
neste verão só no nome,
gélido verão interior.
Vês?
Não poderia ter bons dias,
sem ti, meu amor!
                                       Suzette Rizzo



1 de janeiro de 2018

Pensamentos do primeiro dia de 2018 - Suzette Rizzo




Ah! Sonhos mágicos
que debutaram comigo
passarelas de felicidade!
Agora, se escondem entre os nós do peito,
sob a beira da cama,
por frestas da saudade.


Sentimento cruel este! 
Temeroso de expor a continuidade
dos lampejos de esperança... 
E hoje, na fase adulta,
esta total liberdade, 
incrivelmente oprime e só me assusta.

Suzette Rizzo - January 03, 2018






28 de dezembro de 2017

Oração ao Pai - Suzette Rizzo



Obrigada Pai, 
pela estrada escorregadia,
em que aprendi que o cair
é a Graça do levantar.
Obrigada pelo sol, pelo quintal,
por cada animal recolhido,
alegria angelical.
Obrigada Pai, por este dia,
por cada bom pensamento,
pela ausência de temporal.
Obrigada Pai, 
pelos poucos amigos,
por aqueles riscados,
pelo bem recebido.
Obrigada Pai, por mais esta manhã
mesmo solitária,
por esta oração que escrevi, 
ao som dos seus Bem-te vis.

Suzette Rizzo - Thursday, December 28, 2017





NO CAMINHO, COM MAIAKÓVSKI - EDUARDO ALVES DA COSTA



(Este poema não é de Vladimir Maiakóvski 
como foi espalhado na net.
Autor: Eduardo Alves Da Costa, escrito nos anos 70 durante a ditadura) 

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakósvki.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho e nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz:
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas no tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares,
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo.
Por temor, aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!

“EDUARDO ALVES DA COSTA é autor de alguns dos maiores e mais belos poemas da língua portuguesa. O fragmento de um deles, No Caminho, com Maiakóvski, sem dúvida o mais popular — transformado em bandeira contra a ditadura nos anos 70, em pôster, cartões postais, estampa de camiseta da campanha Diretas Já, mensagem massificada na Internet — já foi conhecido, em todo o Brasil, como o poema mais famoso e representativo de... Vladimir Maiakóvski, o poeta russo. O equívoco, que durou muitos anos, é mais uma vez corrigido neste livro” (...)