23 de março de 2018

Maquinal - Suzette Rizzo







Enraízo pensamentos!
Na verdade nem preciso,
por si grudam nas bordas
e permanecem na orla...

Incomodando, se ressequidos,
Incomodando, se lacrimosos,
Incomodando meu espirito.

Enraízo pensamentos,
não que eu queira...
Mas eles sabem
o que devem e não.

São tão convictos e artesões!

Suzette Rizzo





Perdas – Suzette Rizzo







Houve perdas, foram tantas!
Sinto falta de cada fisionomia
cada tom de voz.
Estão todos reunidos nas lembranças,
todos filhos da esperança.
Enfim, sobrei!
Para carregar tristezas,
sentir saudades,
sofrer ausências...
Não ouso medir estranhezas,
nem o abatimento da alma,
e menos ainda explico
o que acontece por dentro,
além do inconformismo,
e da mentira deslavada
do esquecimento.

Suzette Rizzo - March 23, 2018





Soltura ( II )– Suzette Rizzo



Agradeço o livramento,
o fim do encantamento,
o afundar do meu barquinho.
Agradeço o céu distante,
o sonho noutro sonho,
a minha maturação,
o derramar do vil restinho,
a minha sempre solidão.
Agradeço sim,
cada lembrete, e mail,
a rosa,
espinhos,
a insignificância do acontecido,
o epílogo,
o retorno ao meu cantinho.
Suzette Rizzo - 2015



18 de março de 2018

Cala a boca – Suzette Rizzo



O medo comprime o peito
e a noite grita tão perto.
Tu não sentes obviamente,
nunca tiveste que vestir capas do medo
em teu destino contente.
O medo oprime, mas será crime
sonhar passivamente?
Pensar subjetivamente?
Recusar patentes? 
E eu vi, ideais  afogados 
no travesseiro!
Eu vi, a farda e o guerreiro.
Tu dormes, obviamente!
Dormistes quando jovem!!!
O que conheces de amarguras,
do mundo infame,
da criatura desumana?
Quanto a mim, atiro setas na ditadura.
Esganaria se pudesse a história bruta,
bigodinhos e barbas
inquisidores e cabeças duras.
O medo invade... há tirania!
Tu não sabes o que seja o medo,
a dor, a fome, a luta...
Então, cala a boca! 
Volta a tua gruta.

Suzette Rizzo




9 de março de 2018

Confuso ser esse que sou - Suzette Rizzo




Fica a energia,
a sensação da presença
e no ar aquela magia.

Sento-me no tapete perto do som,
sentindo a umidade dos olhos dele
em minhas mãos... 

Perco muito tempo
equilibrando pensamentos,
racionais ou não.

E com fúria, odeio a resignação,
conduta irreparável
às minhas perdas...

Tento, em vão, afugentar o tédio, a saudade
e este sentimento de possessão,
que nunca se afasta, nem me deixa.

Então, odeio com tudo que posso,
este querer desorientado, irreprimível e camuflado,
temendo ser violado, sem que eu perceba .

Suzette Rizzo





6 de março de 2018

Sola da vida - Suzette Rizzo


      



Vida nefasta
estrada inteira!
Lado a lado comigo,
sonho e real
permitindo os contras do pensar,
emoções amarrotadas
e a corrida cansativa
ao mel da vida.

Estéril!
De mim não nascem flores,
esperanças verdejantes,
apenas rondam aves carniceiras.
De mim não exala vibração
e fechado está o jardim das roseiras...
Rondam, somente,
malefícios de primeira.

Nem o solitário coração
encontra uma réstia de luz
e meus olhos se enterram qual avestruz
dentro da terra que ingere meus passos.
Meus olhos buscam tons azuis,
mas o céu acinzenta-se
num pestanejar de mago.

Vejo-me em sonhos e nem acredito.
Serei aquilo?
Aquela, na estrada larga,
minúscula qual formiga?
Nem adiantaria pedir socorro...
Um pé sempre atropela
e o outro assassina.

Depois... vem um anjo
e leva a alma espremida
na sola da vida.

Suzette Rizzo







Prazeres e desprazeres – Suzette Rizzo







Vontades
são aquelas ansiedades
que acordam fantasias...

Fantasias
são aquelas imagens
que brilham
e num relance  se dissipam.

Vida é um pouco disso!
Morte é tudo isso!

Suzette Rizzo



Uvas doces - Suzette Rizzo




Puro delírio, pensar em nós.
Amolece, inspira,
anoitece verão...

mas, nada, nada mesmo,
hoje se encaixa 
na minha ilusão. 

Alguns passos beira mar,
pousar os olhos
na preguiça das águas

oscilando sobre elas
o luar,
sempre trás saudade, só isso. 

Mas a luz das estrelas
desmancha o cenário,

assim como odores e cores
da natureza
nublam tudo de lágrimas.

Não resolve pensar
cachos de uva moscatel
que gostavas.
 
Tentativa vã,
adoçar pesares
sempre ativos na memória

Nem mesmo resolve
pensar matizes,
alucinações mais claras...

Tristeza e mágoa
acinzentam entranhas,
ferem praias azuladas.

Suzette Rizzo



Antes era assim: - Suzette Rizzo




As palavras brotavam
como nascentes de águas claras,
como que sopradas
por anjos poetas.

Chegavam aos pensamentos
aglomerado de maravilhas
que eu mesma
desconhecia.

Antes, eu amava!
Acontecia deslumbramento.
Lambuzava-me de sentimentos,
enfastiava os sentidos

e, aquele sentir
supervisionava meus atos,
todos revestidos
da cor do amor.

Agora, não encontro
nem mesmo a senha
que reabre as portas
da imaturidade.

Daí esta saudade!

De ter visto tudo com outros olhos,
sentido além dos sentidos
poetado mais a essência
e menos o destino

Suzette Rizzo – 2001









5 de março de 2018

Ainda é... sempre será - Suzette Rizzo





Ainda mora
na cor das folhagens,
no brilho do cristal,
na melodia que ecoa
em todas as horas.

Mora ainda,
em meu olhar parado, 
perseguidor de momentos,
miragens,
na busca incansável
da matéria dissolvida
no ralo dos sonhos
desta viagem.

Nada encerrado!
Nem a respiração...
o gemido
e nem o sussurro
do meu destino...
Trazendo à vida
o amor punido...
Amor que escoou,
escoa...
mas não seca!

Trágico, tem que ser!...
Lúcido, místico, eterno...
este amor que dilacera...
Amor que abre pouco a pouco
meus infernos!
Sim... minha alma não pensa...
Peca!

Suzette Rizzo - 2002



28 de fevereiro de 2018

Sonho exposto - Suzette Rizzo




Sigo em frente...
sou tua costela e a sombra da Eva
que te pertence.

Te guardo em meus braços,
te prendo no abraço,
balbucio uma canção misturada a oração.

E adormeces pensando nela...
na outra que é cria
do teu novo coração.

Observo teu globo ocular sob as pálpebras
a dançar mais apressado,
e sorris meio de lado,

carregando de vez meu sono
e o futuro deletado 
para baixo do colchão.

Meu peito é furacão, 
devastando a vida inteira
de uma estrada contramão.

Não posso voltar atrás,
muito mesmo recomeçar
em qualquer outro lugar.

Esfarelo-me lentamente,
misturando-me
a teu corpo de barro frio.

Serás sempre aquele Adão,
a minha sempre metade
e eu já sou o pó varrido.

Estás limpo da minha carne,
e cortaste as tuas unhas,
preparando outro amanhã.
Suzette Rizzo







Chico Buarque – Joana Francesa





















Tu ris, tu mens trop
Tu pleures, tu meurs trop
Tu as le tropique
Dans le sang et sur la peau
Je me dit loucura e de torpor
Já é madrugada
D'accord d'accord d'accord d'accord

Mata-me de rir
Fala-me de amor
Songes et mensonges
Sei de longe e sei de cor
Je me dit prazer e de pavor
Já é madrugada
D'accord d'accord d'accord d'accord

Vem molhar meu colo
Vou te consolar
Vem, mulato mole
Dançar dans mes bras
Vem, moleque me dizer
Onde é que está
Ton soleil, ta braise

Quem me enfeitiçou
O mar, marée, bateau
Tu as le parfum
De la cachaça e de suor
Je me dit preguiça e de calor
Já é madrugada
D'accord d'accord d'accord d'accord