23 de março de 2014












Diferenças
Suzette Rizzo

Não ficaria sem te ouvir dizer alô
mesmo que fosse apenas alô.
Daria um jeito de chegar ao teu ouvido
mesmo que fosse telepatia,
só pra gritar a saudade
que sempre dizes ter sentido.
São pequenas coisas
que fazem dar crédito ao sentimento
do outro.
Percebeu a diferença?
Eu te abraço com todos os tentáculos
de um polvo.

MAIOR QUE TUDO
Suzette Rizzo

Maior que a dor da saudade
a dor da ausência,
do olhar carinhoso
as vezes malicioso
pedindo indecências

Maior que a falta
a solidão constante,
a alma em frangalhos
e o escárnio do futuro
em branco,
sempre solidário.

Maior que o instante passado
revivendo a vida do corpo,
é a luz  invadindo meu espaço,
constância alentadora
piscando a visão plasma..
Meu sustentáculo !


AGOURO
Suzette Rizzo

Havia um corvo, um ninho deles
em meu telhado,
agourando a minha vida
matando tudo que era meu.

Um corvo que sujava a paz,
estraçalhava o futuro,
farejava desgraças
e afastava de mim, tudo.

Eu não via esse corvo,
mas alimentava a esse e a todos
agasalhando-os com meus temores.

Não sabia que estavam lá...
E quando pude senti-los, já não tinha casa
e ele, o rei fortalecido, devorou-me a alma.

                                      Suzette Rizzo

22 de março de 2014


Como elefante (2)
Suzette Rizzo


Não esqueço...
Sou como elefante.
Mentira dizer que esqueço coisas
tatuadas no âmago,
coisas que exigiram demasiada atenção,
coisas gravadas nos bits da memória.




Não esqueço quem me cortejou,
quem magoou profundo,
quem meus olhos observaram,
não esqueço quem faz parte
das páginas da minha história.
Não esqueço quem me consola,
quem sei que a boca nem diz
mas intimamente chora.
Não esqueço os degraus da vida,
nem a marcha fúnebre
que esta alma deplora.
Não esqueço os estilhaços
nem as suturas
da dor que perfura.
Sou como elefante, ando devagar,
em cada passo meia década
e um acumulo de dor,
a vazar pelo olhar.


21 de março de 2014

Hoje... Sem perfume
Suzette Rizzo

4 horas, 39 minutos.
Não consigo escrever,
não consigo dormir
nem coordenar idéias.


Encolhem-se todas as palavras,
a melhor frase se atrapalha
e aquele perfume de maça,
prenunciador da inspiração,
evaporou. 

Hoje, a poesia se desatou de mim,
adormeceu na dimensão vizinha,
não quis sair de casa.
Não há sintonia,
comunicação mística
e minha alma esta vazia.

Escreverei amanhã, se houver visita. 
Suzette Rizzo



Suas Palavras       
Suzette Rizzo  

Suas palavras
foram sempre estrelas,
bailando por sobre os tapetes
da minha emoção...
E reluziram por todos os cantos,
como aglomeradas constelações.




E cantaram clássicos,
mergulho da alma nua
em poemas-sedução.
Dançaram como chama frágil
de pequena vela,
rimaram seriedades,
acenderam tempos mágicos !
          
Suas palavras me deram colo,
acariciaram meu cabelo,
beijaram meus sonhos puros
e ninaram meu cansaço...
Como se fossem braços,
abraçando meu futuro !

Mas, suas palavras agora cochicham
atrapalhando meu desejo de esquecer,
os gritos que ainda expulso.
  Suzette Rizzo


20 de março de 2014

Total escassez
Suzette Rizzo

Preciso amar para que a inspiração volte,
não basta dor e melancolia,
não basta angustia ou apatia
para tecer poesia.
Preciso amar aquele amor de tirar o fôlego,
sabe qual?
Aquele que o coração quase sai pela boca
quando chega,
aquele que ao ouvir a voz... só a voz

e a gente flutua, voa como passarinho,
sentindo aroma no ar.
Preciso amar para esparramar meus versos
por aí,
deixá-los abraçar a quem necessite
de um contato... como eu.

É simplesmente vital

amar pra renascer.
Desfecho
Suzette Rizzo

Um certo sabor exótico
encontrar no depósito
das lembranças
razões e resumo das fases diversas
de um  tempo utópico.

Mas é bom tapar ouvidos
aos sons mais atrevidos
daquela voz,
misturando o que foi dito
de bom ou ardido.

O melhor mesmo é deixar dormir
o que secou,
seguir  a estrada das surpresas,
atropelar desastrosos vínculos.

Fechar a porta,
a caixa,
o exaurido,
viver novo inicio.





19 de março de 2014

Desejos de voltar - Suzette Rizzo

























Quisera ter a meu lado
quem dedilhasse algum instrumento
e tocasse canções de amor
aos meus ouvidos...
Fizesse-me juramentos,
e eu pudesse descansar desejos
de voltar atrás.
Não tenho! 

Então, alguém piedoso, por favor,
traga-me aquelas borboletas
de asas aveludadas
e, alguns bem-te-vis do quintal
da minha infância,
a esta vida extenuada de querer
e não ter vida normal. 

Tragam-me um pedaço de quindim,
biscoitos de polvilho da vovó...
E por favor, levem de mim
este destino pestilento,
fértil em tormentos,
como mariposas reproduzindo-se
nas lâmpadas suspensas. 

Depressa, por favor,
antes que eu endoideça neste cercado,
morra sem pedir licença
e outra vez volte ao passado
pra ser criança outra vez.
                                          Suzette Rizzo






18 de março de 2014

Agora
Suzette Rizzo

Foi reunindo versos,
guardando ternuras,
excluindo assim carências,
extravasando defeitos,
caminhando sem perceber
por um labirinto estreito
sem qualquer destino.
Agora, ficou visão de lagoa seca, 
pra de vez em quando 
ele brincar 
de ver peixinhos.


Senso
Suzette Rizzo

Abracei o poema, mais um,
pendurando no peito palavras,
dissecando-as,
sentido-me pelo meio.
Perguntei-me tantas vezes o  que fui,
o que sou
senão a continuidade da miragem,
senão uma ilusão desfeita...


Continuo em desvantagem
sendo sempre fantasma,
num repente evaporado
como plasma..

  

17 de março de 2014

Compaixão
Suzette Rizzo

Dói feito picada de abelha,
dói mas passa
como furo na orelha.
Enganação dói,
também passa
se a gente não olhar mais
nem de esguelha.
Tudo passa, qualquer dor de amor,
dor da partida, dor da existência,
dor grande e dor pequena.




Ultimamente ando apática,
com raiva, com dó de mim,
do tema, do teu dilema.

Ando com pena! Só com pena!
Oscilação
Suzette Rizzo

Não sei se quero voltar
ao meu total silencio,
aquele que não me obrigava falar,
pensar, responder...
Não sei se quero de volta a solidão
que tão mal me fez.
Minha alma está com a minha cara,
tristonha, cabisbaixa
e de tão incompreendida,
estou  meio que destroçada,
fazendo café mais forte
e dormindo nada.
Tenho corpo e espírito despencados,
caindo pra fora dos meus pecados
que ainda bem são leves...
Apenas depressivos,
um tanto amuados.



.
Falta de ar
Suzette Rizzo
 
Enroscada
nesta emboscada.

Nessa hora queria asas,
quatros patas,
ser rio de corredeira,
nuvem apressada.



E nem a chuva lava,
nem a vida passa
ou essa coisa desmaia.

Estou enredada
feito um peixe semimorto 
de boca aberta,
pedindo socorro entre soluços
espetada em quatro arestas

não morro...
mas desespero-me quando a boca fecha.

Esse mundo é um soco no meu nariz,
cúpula fechada, refluxo de ar,
e ele, somente aprendiz,
aprisionando sem motivo
quem  não amou ou deixou de amar.




Uma resposta
Suzette Rizzo

Leis foram feitas por deuses e homens.
Discordo de muitas, aceito algumas.
No entanto, uma coisa é fato.
Se  fez algo ruim, arque com as conseqüências,
ninguém sofrerá em seu lugar
e nada limpará sua alma 
exceto o seu retornar.
Leis foram feitas,
cada um crê no escolhido Avatar.
O certo para mim é a Divina Justiça,
seja qual for o pecar.
Vergonha de mim
Suzette Rizzo

Perco os olhos no estampado do lençol,
revendo cenas aflitivas ...
A boca já não fala comigo,
o espelho não me aceita como sempre
e eu apenas respiro.
Se ficar quieta não sinto o corpo
e amortecida não existo,
exceto pelo desenrolar pensares...
mas só eu sei a altura do grito.


Enrolo-me no lençol cerrando os olhos,
apertando-os o máximo que posso,
para esconder a vergonha que sinto
de ainda precisar-te
nos meus sonhos indistintos.